/POEMAS
A minha escrita representa a morte de mim. Cada peça que escrevo é como a de um quebra-cabeça. Deixo uma versão de mim que possa descansar na poesia. Não como se eu a abandonasse, mas pelo contrário, a eternizo no descanso; como o epitáfio na lápide de um túmulo. Pensamentos que perdem espaço na minha mente e se tornam algo que eu possa observar. Dessa forma eu as revisito e lembro de cada versão que já fui — às vezes o que poderia ter sido; o que não fui; ou até as que são, na verdade, outras pessoas.
Índice:
Agosto 2026
Maio 2025
./Cada rosto que este rosto viu.txt
Eu me lembro de você
Pois vejo um pouco de ti
toda vez que olho no espelho.
Ainda ouço sua voz
Sempre que tento imitar
seus dialetos e jeito de falar.
Ainda rio das suas piadas
Pois às vezes faço referências
das quais só você entenderia.
Você foi embora —
Na verdade, nós fomos.
Por que eu ainda procuro por você?
Parte de mim me odeia por isso
Mas gostaria de te encontrar,
Poder ter aquela conversa
sobre todas as que não tivemos.
Mas eu já não te reconheceria mais,
E nem você a mim,
Então… podemos nos conhecer?
2026.24.08
./Tempo.txt
Enquanto o tempo balança,
Sol se põe, Lua nasce, broto cresce;
Seu chamar é uma prece.
Não te espera, apesar,
O tempo ajuda quem faz seu próprio.
Ao girar os polos, se reclina —
Curva ínfima em teus olhos
Já há de dizer o quão se foi.
No seu passar, gira e fecha
A porta antes aberta.
Não fica para espreitar
O alguém que quase foi.
2026.22.08
./Taquipsiquia.txt
Meus pés se movem,
Mas eu não pareço sair do lugar.
O mundo ao meu redor se transforma,
E eu permaneço.
Onde estou, meu corpo inábil
Grita socorro —
Desespero por esmero
Entranha em meu sufoco.
Coisas que queria mudar,
Mas tudo permanece.
Coisas que queria manter,
Mas tudo vai embora.
Lançada lá fora,
Propaga-se a entropia —
Vizinha importuna da minha paz.
Permanência que se desfaz
Trama sobre tudo o que está
Sob meu controle.
2026.22.08
./Hiponatremia.txt
Só mais um não vai doer
Afinal, como posso adoecer
Daquilo que me torna vivo?
No começo, leve prazer
— Até bem me faz a letargia,
Mas dissociar é sua amiga
E logo se mistura a euforia.
Isto me dá asas pra voar
Para depois no fundo do poço me jogar.
Só mais um, não pode doer.
Por enquanto é tudo que tenho para viver.
2026.22.08
./Sangrar.txt
Não temos tempo para sorrir,
Então evitamos chorar
Fugimos da dor e assim
Foge o que nos faz alegrar.
De viver, já basta só aguentar.
Carregamos malas
Que nunca serão descarregadas.
Sangrando sem fim,
Não buscamos a cura.
Regamos este jardim,
Se um dia a semente florescer,
Este fruto é tudo o que vamos ter.
2026.21.08
./O fim do mundo.txt
Se os ponteiros do relógio do fim do mundo
apontassem para você,
O que iria dizer para se salvar?
Talvez encontrar o que perdeu no meio do caminho,
Ou talvez não quisesse isso,
Então deixaria as horas marcarem meia-noite?
Não me chame de louco,
eu também quero assistir ao fim do mundo.
Ou, ao menos, o fim deste mundo.
E, quando o sino soar,
Talvez eu possa te olhar —
Dessa vez de igual para igual
— E cantaríamos juntos numa mesma nota.
Agora você já pode ver
Que nada disso era preciso
Talvez tenhamos arrependimentos,
Birras, e intrigas; coisas tão bobas
Numa terra manchada pela sangria.
Abrindo as asas,
um passarinho deixa seu ninho,
Sua mãe não voa atrás,
sua silhueta é devorada pelo sol.
Então perceba
quanta fortuna há em viver,
Olhe cada rosto
como se pudesse olhar para você.
2026.19.08
./Viver por amor × Amar para viver.txt
Tive medo de te perder
Mas por amor quis te deixar.
Receio de me entregar eu detive,
E em teus braços pude amar —
Mas quão perto posso chegar, sem lhe machucar?
Se não por ti, estaria tão bem só.
Nunca pensei desejar a ninguém fazer falta,
Com tanto desdém, voltei a chamar solidão de casa.
De janelas entreabertas, só a vista me alegra;
Fazer de visitas um lar não mais me apetece.
Decoração a mesma nunca permanece,
Mudo de um quarto para outro
Sem que pense fazer dessa uma mudança permanente.
Posso me alegrar de reformas paliativas,
Mas invejo nos vizinhos companhias fixas.
Vou cuidar de tudo arrumar
Para que um novo inquilino possa entrar
Nesta casa que chamará de lar.
2025.28.05
./Analgésicos.txt
Faço uma aposta na escolha arriscada —
Em breve não me restará mais nada.
Os demônios já deixaram de sonhar
Nos números que os anjos vão jogar.
Lançado pro alto, agora preso na garganta —
Um prazer ímpar de efeito anestésico.
Um gole, um gesto;
Meus sentidos já não são mais meus.
Deturpo em mim o que ainda não morreu.
Deixo para trás uma trilha por onde passo,
Para lembrar de não repetirem o que faço.
Largado em escanteio; não sendo mais o mesmo,
Assisto da plateia o palco
Onde eu costumava ser o ator.
Deturpa em mim o que restou.
2025.23.05
./Sopro.txt
Eu tive uma conversa com meu coração.
Ele dizia as palavras que eu tanto não queria ouvir.
Dizia para eu não largar meus sonhos em um canto
Só por medo de me ferir.
Ele me viu traí-lo
— Fingindo ser outra pessoa,
Com um outro coração,
Um falso, que foi inventado
Para escapar da solidão.
Ele não me retaliou.
Batendo fora do meu corpo,
Apenas me mostrou
A visão daquela cena:
Sua pulsação, uma bagunça sangrenta.
E então o entendi,
Tampouco era eu mais o mesmo.
2025.22.05
./Prematuro.txt
O garoto sabia pouco,
Eles o entendiam ainda menos.
Por sentirem apenas ódio,
O tornaram um ser estólido.
A ele deixaram presentes:
Muitos o entregaram uma rosa.
A ele deixaram mais presentes:
E acenderam velas em sua casa nova.
Em sua viagem antes da hora,
No percurso que fez até agora,
O garoto viveu uma odisseia de pura ilusão.
Teve muitas ideias, mas com pouca execução...
A ele deixaram presentes:
Colocaram um rosário em suas mãos.
A ele deixaram mais presentes:
E deram um terno elegante para vestir.
Só na hora de partir
Disseram que o que importa
É o que há por dentro, sem nunca terem olhado
Para além do que há por fora.
2025.22.05
./Apagado.txt
Palavras
Não podem ser usadas
Para descrever quanta dor elas causam,
Essa que permanece;
Não pode ser desfeita.
Fotografias
Não revelam o que se passava
Por trás das lentes de onde foram tiradas.
Nem tudo o que não foi salvo
Será perdido.
Meu coração
Ainda há de bater
Quando, em minha mente,
Seu vulto percorrer.
Nada é realmente apagado
Se todo o impacto que trouxeram
Ainda reverbera.
Doces memórias vazias
Que o tempo não enterra.
2025.22.05
./Temporadas.txt
Nos campos da primavera, nos conhecemos.
Em casa de verão, logo, repousaremos.
Mas veio outono, e contigo a sua partida.
No inverno, a neve nunca havia sido tão fria.
2025.22.05
./Gaia — deusa da Terra.txt
Óh, Gaia,
Que castigo!
Por que deixaram que a levaste
À beira do precipício!?
Óh, santa mãe da Terra!
Por tudo o que nos provém,
Tu és benevolente e bela!
Deixaste que seus filhos a arruinassem
Apenas para que de bons frutos provassem!
Se vós os encantam,
Saciam-te.
Mas se vós os desagradam,
Abandonam-te.
Deixam-te à mercê do que os é de útil!
Ah, esta forma de vida fútil...
Quando os convém,
Até a tratam bem,
Mas, de toda a vossa graça sem fim,
Estes seres insípidos,
Certamente,
Não são dignos.
Óh, mãe!
Como nos céus poderei retribuir-lhe??
Se vosso filho sois eu
E de vossa sina sois participante,
Mas também vosso amante,
Hei de mim eternamente ser.
2025.22.05
./O Herói sozinho.txt
O herói se senta sozinho
Na mesa onde se servem os justos,
No passo em que na dos vilões
Juntam-se os montes.
O herói se senta sozinho.
Ele é tentado, ele é indagado:
“Por que fazer o que é certo?”
Ele é provocado, ele se excita:
“Por que não ficam quietos!?”
O herói se senta sozinho,
Observando o preto e o branco
Se misturarem agora em um gradiente cinza,
Onde o bem e o mal
Se tornam uma massa indistinta.
Os idiotas são confundidos como sendo belos.
Os justos são vistos sem esmero —
Injustamente não recebem nenhum mérito.
Os cegos dão crédito ao que é estúpido,
E fazem pouco daqueles que fazem o certo.
Fazer por merecer,
Algo em troca receber —
Mas o herói nunca leva nada.
Sem nada em troca esperar,
Até quando, com tanto esforço,
Pode aguentar?
Foi-se a glória.
Foi-se a beleza.
A aparência é ilusória,
E sua forma decadente,
Certamente, esconde sua pureza.
O herói se sente sozinho
Esperando que,
De alguma forma,
Tudo acabe.
2025.21.05
./Aparto.txt
Um salto, e se rompe o que me segurava,
Como uma criança que perde seu cordão umbilical
— O custo da viagem para um novo mundo
Do qual não se pode escolher sequer sua terra natal.
O cruel capricho da vida —
Que te traz, arranca de ti o teu choro primordial.
Enquanto éramos pré-imaculados,
Ríamos e jogávamos.
As apostas eram altas:
Virtú ou Fortuna?
No cassino cósmico da roda da vida
As tragédias são cômicas
Se não fores tu o protagonista.
Demasiado tarde para entrar nesta dança,
Dos meus colegas agora me afasto.
Dessas tantas formalidades eu me afago.
De toda a esperança
Estou totalmente aparto.
2025.21.05
./Insensatez.txt
Rosto moribundo.
Cadáver de quem ainda não morreu.
Tenta apaziguar-se de que,
Na verdade, nunca nem viveu.
Os olhos profundos pesam.
No pesar, profundidade encontrará
Em seu olhar, que há muito de contar,
Mas que tanto escondera.
A morte não o preparou
Para tudo o que o prometera,
E trouxe consigo mais uma surpresa:
A ruína do seu ego.
Ante o abismo do ser,
Percebe que nem todo mal é de doer.
E tudo aquilo não era tão ruim,
Mas nada poderia ser pior.
2025.21.05
./Links.txt
Agora, tarde.
No relógio, os ponteiros
Se encontram no norte —
Como se destinados por um roteiro.
Quarto escuro,
Igual se vê lá fora.
Cinzas apagadas
Sob a pálida névoa,
Doce e frio orvalho
Que adentra pela janela aberta.
Tento fazer alguma conexão
Puxando em minhas memórias,
Em busca de conclusão.
Retomando uma pausa;
O último capítulo não folheado
De um livro sem marca-página.
Em tempos assim,
O único memento que possuo
Me traz solitude.
Não muito do tipo de me gabar,
Mas eu amo essa virtude.
2025.21.05